A tecnologia já faz parte da rotina de crianças, jovens e adultos.
Está presente na forma como nos comunicamos, estudamos, trabalhamos, acessamos serviços públicos e até mesmo cuidamos da nossa saúde.
Esse é um dos pontos defendidos pelo doutor Ery Jardim, pesquisador da área da educação com atuação na formação de educadores e em temas relacionados à inovação, tecnologia e inteligência artificial aplicada ao ensino.
Ao refletir sobre as transformações que a educação atravessa, Ery parte de uma questão central: “como a escola pode acompanhar tantas mudanças sem perder sua função humana e social?”
Para ele, a resposta passa diretamente pelo desenvolvimento da cidadania digital.
O que é cidadania digital?
Mais do que saber utilizar um computador, um celular ou uma plataforma, a cidadania digital está relacionada à capacidade de participar da sociedade por meio das tecnologias disponíveis.
Isso envolve situações que já fazem parte da vida cotidiana, como acessar serviços públicos, utilizar aplicativos, proteger informações pessoais, buscar conhecimento e interagir em diferentes espaços digitais.
“Cidadania digital para mim é a capacidade de participar da vida social, educacional e profissional, mediada por algum tipo de tecnologia”, explica Ery.
Essa participação, no entanto, precisa acontecer com responsabilidade, senso crítico, segurança e ética.
Afinal, estar conectado não significa necessariamente compreender como o ambiente digital funciona ou saber avaliar tudo aquilo que chega até nós.
Por isso, para ele, a escola tem um papel importante nesse processo. A instituição de ensino pode ajudar os estudantes a desenvolverem não apenas habilidades técnicas, mas também uma postura consciente diante das tecnologias.
Da tecnologia em sala de aula para a vida em sociedade
Sabemos que a presença da tecnologia no ambiente escolar já é uma realidade em muitas instituições, e o desafio está em ir além do uso de equipamentos e plataformas dentro da sala de aula.
O doutor Ery destaca que a educação voltada para a cidadania digital precisa mostrar ao estudante como esse conhecimento pode ser aplicado em diferentes situações da vida. Isso inclui compreender seus direitos, proteger seus dados, identificar informações falsas, lidar com situações de violência no ambiente digital e utilizar novas tecnologias de maneira responsável.
Nesse contexto, o letramento digital ganha ainda mais importância. Não se trata apenas de saber operar uma ferramenta, mas de entender suas possibilidades e consequências.
“Uma escola que trabalha a cidadania digital deixa de tratar a tecnologia, por exemplo, como assunto de laboratório de informática. Ela passa a construir nesse jovem, nessa criança, uma cultura de uso de dados, uma cultura de proteção de dados e uma cultura de como lidar com a desinformação”, afirma o pesquisador.
A proposta, portanto, é integrar a tecnologia à formação dos estudantes de maneira mais ampla, conectando conhecimento, ética e participação social.
Habilidades técnicas e pensamento crítico caminham juntos
Para que uma pessoa consiga transitar com autonomia pelo ambiente digital, Ery destaca a importância de dois níveis de desenvolvimento.
- O segundo envolve competências sociais e éticas. É nesse momento que entram o pensamento crítico, a capacidade de avaliar informações, a responsabilidade no uso de dados, a colaboração e a compreensão dos impactos que a tecnologia pode causar na sociedade.
De acordo com o pesquisador a combinação é fundamental para que os estudantes não sejam apenas usuários das tecnologias, mas consigam compreender o que fazem, por que fazem e quais são as consequências de suas escolhas.
O papel da inteligência artificial na educação
Com a expansão da inteligência artificial, novas possibilidades surgem para o ensino e para os processos de aprendizagem.
Na educação, essas ferramentas podem contribuir para tornar os percursos educacionais mais adaptados às necessidades de cada estudante, ampliar a acessibilidade, facilitar o acesso ao conhecimento e apoiar professores em atividades de planejamento e acompanhamento.
No entanto, existe uma condição essencial para que esses benefícios sejam aproveitados, entre eles a capacidade de avaliar com senso crítico aquilo que é apresentado.
“A inteligência artificial deveria ampliar as possibilidades, melhorar a personalização do percurso de aprendizagem, facilitar o acesso, gerar mais adaptação e favorecer a própria acessibilidade”, destaca.
Ao mesmo tempo, o pesquisador alerta para os riscos de uma utilização sem reflexão.
Quando estudantes e educadores não conseguem questionar, interpretar e avaliar as informações recebidas, existe o risco de substituir a aprendizagem pela simples aceitação de respostas prontas.
Por isso, antes de utilizar qualquer tecnologia, é necessário desenvolver a capacidade de discernir. Saber perguntar, desconfiar de uma informação, identificar possíveis vieses e buscar diferentes fontes são habilidades cada vez mais importantes.
A escola precisa ensinar, mas também precisa promover compreensão
Quando o assunto é tecnologia na educação, de acordo com Ery, existe uma preocupação frequente sobre o que deve ser ensinado aos estudantes. Existe, porém uma questão ainda mais importante, saber se aquilo que está sendo ensinado realmente está fazendo sentido para quem aprende.
“Talvez a pergunta mais importante não seja se está sendo ensinado. A pergunta mais importante é se isso que está sendo ensinado está sendo compreendido na sua máxima expressão”.
Isso significa estimular estudantes a perguntar, dialogar e participar ativamente do processo de aprendizagem. Em vez de apenas receber informações, eles precisam ter espaço para questionar e relacionar o conhecimento adquirido com a realidade em que vivem.
Essa mudança também exige atenção à formação dos professores. Educadores, coordenadores e gestores precisam estar preparados para discutir cidadania digital e novas tecnologias de maneira consistente. Da mesma forma, materiais didáticos e estratégias pedagógicas precisam acompanhar essas transformações.
Preparar para o presente e para o futuro
Segundo o Dr Ery, a cidadania digital não deve ser vista como um conteúdo isolado ou uma disciplina que existe apenas para ensinar o funcionamento de ferramentas. Ela precisa fazer parte da formação integral dos estudantes.
Isso significa ajudá-los a desenvolver autonomia, responsabilidade e pensamento crítico para participar de uma sociedade em constante transformação.
Para as instituições de ensino, o desafio está em construir uma cultura que una tecnologia, educação e cidadania. Afinal, preparar estudantes para o futuro também significa ajudá-los a compreender o mundo em que já vivem.
Ery resume essa responsabilidade a partir de uma reflexão importante para as escolas: “o conhecimento oferecido pela instituição está, de fato, dando aos estudantes mais oportunidades para se desenvolverem como pessoas, cidadãos e profissionais?”
Essa é uma pergunta que pode orientar decisões sobre formação docente, uso de tecnologias e construção de novas práticas pedagógicas. Mais do que acompanhar as mudanças, a escola precisa ajudar seus alunos a compreenderem-nas e participar delas de forma consciente.
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