por Edward Hartley
Traduzido por Bruna Martins
Enquanto Claudio Martins (diretor e animador) retorna a Lost Amazon com artistas de projetos anteriores do Valente Studio, incluindo Zé Luis (animador), Rosinaldo Lajes (animador) e Leandro Monteiro (artista de storyboard), o filme — atualmente em desenvolvimento — também incorpora talentos indígenas. A história e o design de Lost Amazon foram moldados tanto por pesquisadores acadêmicos quanto por consultores indígenas das florestas brasileiras.
A trama acompanha Yandara e Kauã, dois jovens de comunidades diferentes que se unem para desvendar uma antiga profecia. Embora fictício, o filme se apoia fortemente em achados arqueológicos da civilização Marajoara e em tradições indígenas que perduram há séculos. O objetivo da equipe é criar um mundo de fantasia que reflita a história real e honre as culturas indígenas.
Para artistas, o projeto oferece uma visão prática de como integrar consultoria cultural ao pipeline de produção. O diretor Claudio Martins e sua equipe também compartilham como abordaram o rigging no Harmony Premium para movimentos complexos de cabelos, penas e folhagens, o uso de ferramentas de deformação para animação orgânica e o trabalho quadro a quadro necessário para dar vida à própria floresta como um personagem.

Por favor, nos dê um breve resumo de Lost Amazon.
Claudio: Lost Amazon é um filme que conta sobre nossos povos originários por meio da fantasia. É uma história sobre como eram nossos antepassados e como surgiu uma das primeiras civilizações matriarcais. Um filme com fatos históricos e consultores especializados para sustentar, mesmo dentro da ficção, dados históricos sobre civilizações que viveram aqui por milênios. Uma história sobre dois povos que não se falam há muito tempo e que, por meio da conexão de dois jovens, Yandara e Kauã, se unem para desvendar uma antiga profecia.
Conte-nos sobre sua equipe e os colaboradores do projeto.
Claudio: O filme conta com diversos profissionais da área artística. Animadores experientes que já realizaram grandes produções usando Harmony, como Zé Luis e Rosinaldo Lajes. Nosso storyboardista Leandro Monteiro, que é supervisor artístico e trabalhou no longa-metragem KEYA. Além dos belíssimos cenários de David Lima e dos personagens de Carlitos Pinheiro.
Outros artistas [do projeto] são indígenas, como Thalia Yanza e Leandro Lima, que cuidarão da parte gráfica. Também convidamos outros artistas indígenas para colaborar nas melodias e percussões do filme. Temos dois consultores especializados: Dr. Eduardo Neves (arqueólogo) e Daniel Munduruku (autor e educador). A partir das descobertas de Eduardo, comecei a criar a história. Isso me despertou para esse mundo ainda pouco conhecido por nós.

Houve alguma cena ou plano específico do teaser do qual você se orgulha especialmente?
Claudio: A entrada de Yandara por trás do pássaro encantado Aruanã. Na cultura e tradição indígena, não chamamos isso de mágico ou especial. É um ser sagrado, encantado, que atrai Yandara para o desconhecido.
Há muita textura e movimento no teaser — de cabelos fluidos a penas e plantas. Como vocês lidaram com esses desafios de animação no Harmony?
Zé: Sem dúvida, os Deformers são uma ferramenta fundamental para alcançar movimentos mais fluidos e orgânicos, e isso é algo que o Harmony aprimora a cada atualização.
Quais foram suas principais inspirações tanto para o cenário quanto para o elenco de personagens?
Claudio: Os personagens são inspirados em culturas antigas e na fantasia. Gosto muito de textura e quero evitar o aspecto plástico que o computador pode criar. Quanto mais natural parecer, melhor. Em relação ao conceito, ainda não temos relatos factuais de como nosso povo realmente era há mil anos. Os designs atuais são temporários, meramente ilustrativos. Esperamos, com a aprovação, fazer um desenvolvimento profundo com a ajuda de nossos consultores para que possamos realmente chegar a um ponto comum.

Como você abordou o design dos personagens de Yandara e dos outros, e como os levou para o Harmony?
Claudio: Yandara é uma garota que quer falar com você sobre o seu povo. Ela é uma garota forte, mas não é isso que a define. Ela me lembra muito mulheres lutadoras, todas as brasileiras que trabalham o dia inteiro e fazem de tudo pela família. Pessoas que lutam contra o preconceito e o machismo. Pessoas que precisam ser ouvidas e respeitadas. Eu queria algo que transmitisse nosso povo. As vestimentas são algo que ainda vamos pesquisar bastante após a aprovação da produção.
Vocês usaram rigging nos personagens do teaser? Quão complexos eram os rigs e como o Harmony ajudou nesse processo?
Zé: Sim, usamos rigging, e os personagens tinham um nível avançado de complexidade. Os diversos nós e opções de blending que o Harmony oferece tornam certos processos muito mais rápidos e fáceis.
Que conselho você daria a outros artistas que querem contar histórias culturalmente significativas por meio da animação?
Claudio: Primeiro, pesquise. Segundo, pesquise ainda mais. A história é rica em fatos, curiosidades e marcos que podem abrir uma enorme janela de ramificações e fazer sua cabeça explodir criativamente. Terceiro, faça com responsabilidade. Tenha certeza das suas fontes e, se possível, faça parcerias ou contrate consultores que possam ajudar. Quarto, considere quem é o seu público e como ele receberá sua mensagem — isso diz muito sobre como você irá se expressar. É um desafio para crianças e outro desafio para adultos.

A floresta parece um personagem em si. Como vocês projetaram e animaram os ambientes de fundo para que parecessem vivos?
Claudio: A floresta é um ser vivo. Na cultura original, ela é sagrada e estamos conectados a ela. Ela precisa se mover, interagir, fazer parte da narrativa. Como lidamos com folhagens, cipós e árvores, o ideal muitas vezes é trabalhar quadro a quadro.
Como o entendimento da cultura indígena da região e da civilização Marajoara influenciou a narrativa visual?
Claudio: Essa região abriga um sítio arqueológico com uma das várias escavações em que especialistas vêm relatando novas descobertas. Fatos interessantes que conectam a história do nosso país em muitos aspectos. Isso nos ajuda a entender nossa origem e a repensar uma série de estudos — e foi extremamente inspirador para mim. Um exemplo são os vasos cerâmicos que datam de centenas de anos. Outro fato: normalmente os restos armazenados eram de líderes, o que nos leva à teoria de que o achado é de uma mulher, devido aos artefatos dentro da urna. Estudos assim despertam faíscas criativas em mim e em toda a equipe.

Eduardo, como arqueólogo, de que forma sua pesquisa está informando o desenvolvimento de Lost Amazon? De que maneiras a pesquisa arqueológica pode apoiar equipes de animação?
Eduardo: Acredito que a arqueologia pode apoiar equipes de animação porque é algo muito visual. Usamos desenhos, fotografias, fazemos esboços o tempo todo quando estamos em campo. Também temos cadernos onde fazemos anotações, escrevemos informações e desenhamos o que vemos. Tiramos muitas fotos porque nunca podemos retirar os sítios arqueológicos de onde estão — isso é óbvio. A única coisa que podemos fazer é registrar da melhor forma possível e levar essas informações de volta ao laboratório. A partir disso, podemos tentar reconstruir partes da vida das pessoas que viveram nos lugares onde trabalhamos. Como precisamos produzir muito material visual, acho que é assim que podemos ajudar a animação — fornecendo nossas anotações de campo, nossos esboços…
Daniel, quais elementos da narrativa ou do simbolismo indígena são mais importantes para você ver representados em Lost Amazon? Como espera que eles sejam retratados na animação?
Daniel: Por ser uma animação fictícia, todo o simbolismo será baseado nas marcas atemporais que os povos indígenas vêm registrando e que ainda hoje é possível perceber. Todas elas são marcas que contam histórias, pois dizem respeito à organização social e às cosmovisões ancestrais. Queremos que os espectadores façam uma viagem ao passado para compreender a importância do presente na preservação da Amazônia e de suas culturas milenares.
Quando o público pode esperar ver o longa-metragem completo?
Claudio: Atualmente estamos aprovados por um órgão brasileiro competente para captação de recursos. Esperamos muito em breve iniciar a produção no próximo ano e estrear em 2028 nos cinemas e, posteriormente, no streaming.
Interessado em ver mais de Claudio Martins e da equipe do Valente Studios?
- Visite o site do estúdio. Você também pode conferir nossa entrevista anterior sobre a produção de Sebastiana.
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